Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Espaços Alternativos

Convencionou-se chamar de ‘espaço alternativo’ para teatro todo espaço diferente de uma sala com local específico para platéia e um palco italiano ou, no máximo (semi) arena para apresentação de um espetáculo cênico. Até apresentações de rua são, agora, encaradas como ‘alternativas’. Mas alternativa a quê? À falta de espaços conhecidos para o tamanho da oferta de encenações? À falta de opções daqueles que não têm possibilidades financeiras para espaços convencionais? À eventual falta de conteúdo que privilegia a pirotecnia para muitas vezes esconder o vazio da forma? A discussão pode ainda ser ampliada sobre o ‘por que’ dessa ‘alternativa’, mas não é o objetivo aqui.

Creio que, em São Paulo hoje, o exemplo mais popular seja o Teatro da Vertigem, grupo já famoso por suas discussões a partir de textos bíblicos e pela utilização de espaços como igrejas, prisões e até mesmo o Rio Tietê. Aqui há uma coerência entre conteúdo e forma de apresentação que se complementam resultando numa quase imersão do espectador no mundo que está sendo apresentado. Outras experimentações na mesma direção oferecem uma festa aos sentidos de pessoas que abrem mão do conforto de um entretenimento convencional para conhecer o que poderá ser a alternativa interessante para a mente inquieta e de assunto para próximos papos entre amigos. Em Porto Alegre, o Falos & Stercus é um dos grupos que mais sabe aproveitar áreas diferenciadas. Seu trabalho performático ocupa espaços dificilmente alcançados por utilizar técnicas de rapel e deslocamentos aéreos variados. Prédio antigo do complexo hospitalar psiquiátrico São Pedro e seu átrio, um antigo casarão do centro da cidade, além de espaços não aproveitados por outros grupos no centro Cultural Usina do Gasômetro. Lembro ainda de uma gigantesca parafernália cenográfica que serpenteava por todo um armazém do cais do porto deixando dúvidas de por onde caminhava o ator entre fumaça e luz. Anos atrás, uma montagem envolvendo artistas de vários grupos levou “O Barão nas Árvores” de Calvino ao mais conhecido parque da cidade, seus espectadores a visitar o parque à noite e atores literalmente às alturas.

O novo, o inusitado e o misterioso sempre causam grande fascínio e talvez por isso seja também interessante para artistas e público esse desvendar do espaço artístico alternativo. Mesmo que tenha que andar atrás do foco de ação, subir escadas, ver uma peça num ônibus em movimento, ver a peça toda através de uma pequena fresta de parede colocada à sua frente dentro de um teatro convencional, o espectador nesse espaço é aquele que enfrenta o medo do desconhecido para experimentar novas sensações. Em várias cidades, e mesmo fora delas, prédios abandonados, lonas de circo, sala de estar de um apartamento, praças e viadutos tornam-se “palco” dessa troca humana não-industrializável e mágica chamada teatro.


(acho que ainda vou voltar a este tema...)

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Uma casa para Caio Fernando Abreu

A idéia de uma mostra cênica com trabalhos inspirados ou baseados na obra de determinado autor ou autora não é nova. Mas é sempre bem-vinda por aqueles que gostam de ler e discutir seus livros e escritos.

Assim, para quem se interessa pela obra de Caio Fernando Abreu - ou apenas Caio F. - São Paulo terá um prato cheio. Como toda primeira edição sem ricos patrocínios, ficou apenas na vontade de seus realizadores a intenção de trazer a diversidade de espetáculos inspirados por seus escritos de vários lugares do país. Mas certamente isso não afeta a qualidade do que será apresentado. Oito espetáculos de teatro e dança serão apresentados de 6 de maio a 27 de junho no Casarão do Belvedere, na Bela Vista em São Paulo.

Abaixo o serviço e programação. Mais informações podem ser obtidas no site www.casaraodobelvedere.com.br

Mostra Cênica Caio F.
Curadoria Rodolfo Lima
Local: Casarão do Belvedere – Bela Vista
Rua Pedroso, 267 – próximo à estação São Joaquim do metrô.
Telefone: (11) 3266-5272
De 06 de maio a 27 de junho de 2009 (3° a sábado)
Ingressos: R$ 5, R$ 10 e R$ 20
Estacionamento próprio: R$ 5 (entrada pela Rua Martiniano de Carvalho,439)
Há acessos para deficientes.
Não há ar condicionado.
Não é aceito nenhum tipo de pagamento com cartões.

12 de maio a 23 de junho – Uma história de borboletas (terças – 21h)
06 de Maio a 24 de junho - O dia em que Júpiter encontrou Saturno (quartas - 21h)
07 de maio a 25 de junho - Pode ser que seja só o leiteiro lá fora (quintas - 21h)
08 de maio a 26 de junho – Epifanias (sextas - 21h)
09 a 30 de Maio – Réquiem para um rapaz triste (sábados – 21h)
06, 07 e 08 de junho – Os Dragões (sábados – 21h e 23h59; domingos - 18h e 20h30 e segundas - 21h)
13 a 27 de junho – Todas as horas do Fim + Das memórias do coração (Sábados - 21h)

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Deepa Mehta, uma realizadora.

Sempre há uma ligação biográfica em cada trabalho artístico.

Recentemente comecei a conhecer o trabalho cinematográfico da realizadora naturalizada canadense Deepa Mehta. A crueldade e singeleza com que individualiza questões de seu país natal, a Índia, encantam, chocam e fazem pensar. Seu olhar agudo percebe a realidade numa cidade contemporânea, mescla de usos ocidentais e costumes tradicionais em “Fogo” e através da simplicidade do olhar infantil temos uma versão não-romantizada da independência política do país em 1947, no filme “Terra”. Aliás, o olhar infantil se faz sempre presente. A individualização nos permite compreender, humanamente, as situações vividas, coisa impossível através de textos históricos ou artigos jornalísticos. Entre outros filmes, há ainda “Água” de 2005 que, imagino, complete uma trilogia.

Em “Fogo” (1996), o olhar sobre a realidade feminina e a não menos perdida realidade masculina na índia ‘moderna’ nos traz sons, cores e até – ouso dizer – odores atuais sem perder a ligação com a identidade tão religiosa do país.

“Terra” (1998) poderia ser resumida na cena em que três crianças conversam sem se importarem com as diferenças que mataram mais de um milhão de pessoas apenas no ano da independência da Índia. Poderia. Mas é muito mais que isso. Ali a realizadora consegue deixar no ar certas questões; onde deixamos nossa inocência? Quando deixamos de ser simples para complicar a ‘essência’ de ser humano’?

Longe de serem filmes comerciais, mas também longe de serem ‘apenas’ filmes-cabeça merecem sim, uma busca e uma reserva em nosso tão atarefado cotidiano de um tempo para sentir o fogo, a terra e – pretendo em breve - a água da Índia.

Domingo, 29 de Março de 2009

Inteligência X Intolerância

Em "Os Visitantes" Jean Reno vive um escudeiro que aterra no ano de 1992 junto com seu escudeiro. Entre tantas situações que eles naturalmente vivem, uma passagem em especial me marcou. Com sua ‘descendente’ ele chega ao castelo que era sua morada. À parte exclamações de como defender um lugar cheio de janelas, o maior espanto pra ele é que o castelo está sendo vendido para transformar-se em um hotel – pelo que lembro - e o antepassado mais festejado e homenageado foi aquele que participou ativamente da revolução francesa (pra felicidade do escudeiro) e entregou suas posses ‘ao povo’.
Só neste momento já percebemos duas grandes mudanças: a cultural, com os séculos de diferença e a ruptura da revolução armada, mais abrupta e bem mais ‘alteradora’ do status quo.
Desnecessário seria alongar aqui sobre as mudanças na história do mundo que o transformaram no que é hoje. Entre erros e acertos, a vontade natural (ainda que utópica) da maior parte dos seres humanos, creio, é buscar um modo de vida mais equilibrado entre as vontades e necessidades de todos. Nesse caminho, faz-se necessário haver dois extremos para que o equilíbrio tão almejado seja realmente alcançado, o que, sabemos, nem sempre acontece ou pode custar um bom tempo dentro da história da humanidade.
Caso sutiãs – artigo tão necessário na saúde e estética feminina – não tivessem sido queimados, onde estaríamos? Parece absolutamente tão natural que as mulheres, na imensa maior parte do mundo, hoje tenham vários direitos assegurados, entre eles o direto a voto. Mas até 1971 isso era negado às mulheres suíças. São apenas 37 anos! Quando a primeira pessoa falou em sufrágio feminino, deve ter sido recebida com gargalhadas por muitas e muitas pessoas.
Quantos olhares de descrédito Gandhi não deve ter recebido quando começou a pregar sua ‘revolução pacifista’ para libertar a Índia de seus colonizadores?

É inegável que – exageros sensacionalistas à parte – nosso planeta vem sofrendo, ao longo dos séculos, uma degradação natural de seus recursos e uma mudança no comportamento humano levará ainda, infelizmente e no mínimo, umas dezenas de anos. Mas de algum ponto precisava começar.
É triste observar como o ser humano, em essência não muda. Intolerância é uma constante. Percebo pessoas altamente articuladas, inteligentes e cultas, debochando de maneira até infantil da iniciativa alheia.
Seja como for, se não está interferindo diretamente nas suas vidas, por que parecem se incomodar tanto com as manifestações alheias? Não creio que apenas por ceticismo em relação aos seus efeitos práticos a curto prazo – somente um ingênuo esperaria isso. Mas talvez, quem sabe, por necessidade de dizer algo, de discordar pelo simples prazer de fomentar uma discussão? Ótimo, que venham muitas discussões! Elas aguçam os sentidos, obrigam a pensar, argumentar, encontrar alternativas.
O que realmente mais intriga é essa dicotomia estranha inteligência X intolerância. Estas pessoas que ironizam atos simbólicos como “A Hora do Planeta” (com todas as suas características positivas ou inócuas), insistindo em estar presente na discussão, são as mesmas que muitas vezes, revoltam-se com posições anti-semitas de outros. Não pensarão estes da mesma forma em relação ao pensamento daqueles?
Creio que TOLERÂNCIA deveria ser a palavra de ordem nas discussões que podem, assim, produzir resultados realmente interessantes ao nosso mundinho.

Terça-feira, 10 de Março de 2009

E a sua alma, como vai?

A Alma Imoral revelada por Nilton Bonder é um livro que merece ser ouvido na voz tranquila de Clarice Niskier. Nas palavras de Amir Haddad, o olho que olha a direção, eles são a evolução. Um árabe e uma judia dão corpo – ou deveria dizer “ainda mais alma”? – às palavras escritas por um rabino com uma visão ampla de mundo, a partir do que poderia ter sido uma visão estreita dentro de uma religião.
O monólogo que há quase 3 anos ensina e faz pensar sobre tantas reentrâncias de nossa alma adolescentemente traidora e transgressora que, na maioria das vezes desenvolve-se na tradição dos caminhos humanos conhecidos e seguros, apresenta calmamente uma oportunidade de reagirmos, reinventarmos a nós mesmos – ou pelo menos pensar sobre quem somos. Pois não há maior solidão que a ausência de si.

SERVIÇO:
A Alma Imoral
Neste monólogo, a atriz parte do livro homônimo para tratar de dilemas éticos, em especial da tensão entre tradição e ruptura. Premiado com o Shell 2007 de melhor atriz. (Drama)

Duração: 75 minutos
Classificação: 18 anos
Supervisão: Amir Haddad
Texto: Nilton Bonder
Adaptação e interpretação: Clarice Niskier
Livraria Cultura - Conjunto Nacional Teatro Eva Herz
Av. Paulista, 2.073 - Bela Vista - Centro. Telefone: 3170-4059.
Aceita os cartões Amex, Diners, MasterCard, Visa. Ingresso: R$ 50.
Quando Mais informação: 11-3170 4059
Dias 09/03, 10/03: 21h.
Dias 16/03, 17/03: 21h. (2a e 3ª feira)

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

2009 com notícias de 2008: 54a Feira do Livro de Porto Alegre

Atire a primeira pedra quem nunca ficou assoberbado de afazeres e acabou deixando um prazer de lado. Pois é, um dos meus prazeres é escrever. Ou melhor: digitar minhas idéias e pensamentos. Mas nos últimos meses, viagem a trabalho, viagem de final de ano, estréia, tudo contribuiu para eu me privar do prazer desta modesta coluna. E não foi falta de tempo pra escrever, foi falta de tempo pra pensar mesmo. Pensar o que foi assistido, trabalhado.
Mas chega de desculpas e vamos ao que interessa. No final de outubro fui a Porto Alegre trabalhar na [minha] 10ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre. E me comprometi a escrever aqui sobre ela. Claro, a coluna originalmente era pra ser sobre teatro. Mas fui devidamente autorizada e cá estou eu: contando de museus, feiras de cultura, falando de acordo ortográfico que finalmente entrou em vigor. Ah, com isso ainda terei que me habituar a escrever “diferente”.

Pra quem não sabia, Porto Alegre tem sim, uma feira do livro. Há 54 anos. Em uma das edições em que trabalhei, a coordenação buscava informações sobre a idade das feiras pelo mundo e entre as mais antigas está a Feira de Frankfurt (Alemanha), considerada o maior evento editorial do mundo com 60 edições completadas em 2008. A celebradíssima Feira de Guadalajara (México, 23 anos) junto à Feira de Porto Alegre é das maiores da América Latina e o maior evento literário do mundo das letras espanholas, fazendo, jocosamente com que ‘a nossa’ feira esteja entre as mais antigas e maiores.
Ufanismos à parte, o que faz a Feira do Livro de Porto Alegre diferente das outras? Primeiro, pra usar um termo em voga, é extremamente democrática em seu acesso, pois é realizada ao ar livre, na Praça da Alfândega no centro da cidade. Sendo ao ar livre, seu acesso é totalmente gratuito e isso inclui as quase 400 atividades como palestras, encontros com escritores, oficinas, sessões de cinema, apresentações teatrais e musicais e as quase 900 sessões de autógrafos. E aí se inclui outro aspecto: é uma feira essencialmente cultural, enquanto a maioria das feiras é mais voltada ao mercado editorial. Logicamente, desde sua criação, o objetivo é vender livros. Mas os expositores são associados a uma entidade de classe sem fins lucrativos que realiza a Feira, a Câmara Rio-Grandense do Livro e seguem alguns critérios para ter direito de colocar sua ‘barraca’ na praça. É uma feira anual e pra quem tem interesse em números, alguns dados do release do balanço final da 54ª Feira do livro de Porto Alegre, que também está disponível no site da Feira, onde há também uma bela galeria de fotos.
Seu crescimento fez com que as áreas infantil, juvenil e internacional e hoje as duas primeiras se localizam em armazéns do cais do porto fazendo a Feira cruzar três ruas paralelas, ligando a praça aos cais. Se o objetivo primeiro de uma feira é vender livros, nada mais natural que trazer o público à praça através da programação gratuita que fomenta o interesse por assuntos diversos que, por sua vez, estão nos livros.
Importante lembrar a importância das parcerias da Feira. Não falo apenas dos patrocinadores. Seja através de programações, autores, cedência de espaço físico, a Feira conta com a colaboração de associações diversas, universidades, professores, editoras, profissionais liberais. Todos ajudam no desenvolvimento da programação a públicos diferentes. Várias instituições culturais cujos prédios históricos ao redor da praça abrem as portas às atividades há vários anos fazem parte dessa festa do livro. Há alguns anos a sociedade é chamada a participar com sugestões e programações. Exemplificando: seminários sobre música e cinema foram desenvolvidos através de reuniões com entidades de classe e profissionais renomados que levam sugestões e apóiam com seu trabalho essa realização. Comunidades de escolas e instituições voltadas a estudos sobre terceira idade, PPDs (pessoas portadoras de deficiência), psicanálise, arquitetura, astrologia, ciências variadas são apenas uma parte da variada lista de colaboradores.
Há também que se levantar o aspecto social da Feira. Não apenas pela possibilidade de escolas e alunos sem grandes recursos financeiros terem acesso, mas também pela realização do Projeto Asteróide (inspirado pelo livro O Pequeno Príncipe, desde o ano em que a França foi o país homenageado) recebendo jovens e crianças que, ao longo do ano, tem na Praça sua morada. Ao longo do ano mantêm contato com a Câmara, mas especialmente nesta época, desenvolvem atividades, são convidados a participar dos eventos, recebem alimentação, higiene e muitos deles conseguem reencontrar suas famílias e/ou retornam à escola.
“Detalhes” que diferenciam este evento de Feiras mais festejadas pela mídia nacional e fazem com que escritores, intelectuais, público, editores e principalmente aqueles que, como eu, trabalham ao longo do ano para que a Feira aconteça, queiram sempre voltar.
Pra uma população de pouco mais de 1.360.000 habitantes, os números são admiráveis.


Balanço final
– 54ª Feira do Livro de Porto Alegre –
Depois de 17 dias, a Feira do Livro de Porto Alegre se despede da Praça da Alfândega certa de ter colaborado para que a população tivesse acesso ao livro e à leitura, por meio de encontros com escritores, oficinas, apresentações artísticas e milhares de títulos literários em um espaço aberto e democrático. O maior evento do setor realizado a céu aberto no continente americano retorna no ano que vem.
Agradecemos o apoio de toda a imprensa. Fica o convite para o próximo ano. A 55ª Feira do Livro de Porto Alegre já tem data marcada: 30 de outubro de 2009.
Neste material, reunimos as principais informações que comprovam a abrangência de
realizações e de público alcançada pela Feira em mais uma edição.

VOLUME DE VENDAS DE LIVROS
Total: 424.046 (representando uma queda de 8% em relação à Feira de 2007)
Área Geral 295.624 (queda de 8% em relação a 2007)
Área Infantil e Juvenil 111.469 (5% a menos do que no ano passado)
Área Internacional 16.953 (redução de 10% nas vendas)

AUTÓGRAFOS
Total: 829 lançamentos
Praça de Autógrafos: 574
Área Infantil e Juvenil: 91
Sessões coletivas: 117
Sessões realizadas em salas de eventos: 47
Campeão de fila: Eduardo Galeano

NÚMEROS FINAIS DA PROGRAMAÇÃO
* Área Geral
Programação Artística com 98 eventos, 231 ministrantes e um público de 10.355 pessoas. Com 36 oficinas para um público de 1.594 pessoas e 129 encontros com o livro (palestras, seminários) FORAM, AO TODO, 264 ATIVIDADES MINISTRADAS POR 634 PESSOAS PARA UM PÚBLICO PRESENTE DE 21.016.
Dos ministrantes: 511 foram gaúchos, 93 brasileiros de outros estados e 30 de outros países.

* Área Infantil e Juvenil
Atividades prévias
Encontros com autores em escolas na etapa prévia da Feira : 262
Encontro com educadores na etapa prévia da Feira: 12

Encontros com autores
Autor no Palco, para alunos do ensino fundamental : 19
Casa do Pensamento, para público jovem : 19
Arena das Histórias para alunos da educação infantil e das séries iniciais: 25
QG dos Pitocos, para público pré-escolar: 9
Ducha das Letras :1
Ateliê da Imagem : 3

A Hora do Educador
Mesas-redondas : 13
Oficinas Ducha das Letras : 16
Oficinas Ateliê da Imagem :23
Espetáculos: 7

Encontros
Escoteiros: 2
Confraria das letras em Braille: 1
Reinações Confraria da Leitura : 1
Jovens Escritores: 1
Palestras sobre HQ: 14

Sessões de contos
QG dos Pitocos : 170
Arena das Histórias: 45
Ducha das Letras : 8
Apresentação de projetos de Leitura : 17
Exposições: 6

Oficinas para crianças e adolescentes
Arena das Histórias:1
QG : 21
Projeto Asteróide :17

Espetáculos de teatro tradicional e teatro de bonecos e outras apresentações
artísticas

Arena das Histórias: 2
Teatro Sancho Pança: 49
QG dos Pitocos : 16
Território das escolas: 14
Casa do Pensamento : 7
Deck dos Autógrafos : 17
Apresentações artísticas de escolas: 68
Sessões de autógrafos de escolas : 34

E mais:
Programa de Rádio
Concerto da OSPA
4ª Regata Festiva da Feira do Livro
1º Passeio Ciclístico da Feira do Livro
Visita do navio-patrulha Benevente e da Corveta Imperial, ambos da Marinha do Brasil com visitação do público

Sábado, 20 de Setembro de 2008

O Museu da Língua

Talvez eu esteja interferindo na coluna alheia com o tema, mas é sempre oportuno falar de língua e linguagem enquanto questão de identidade cultural.

Uma das grandes vantagens de viver numa cidade como São Paulo é a possibilidade de sempre ter alguma boa surpresa. Ao contrário do que é difundido, o acesso à cultura é sim, muito barato e fácil. Um dos mais recentes exemplos é o ‘novo’ Museu da Língua Portuguesa. Localizado na recém reformada Estação (de trens) da Luz, encanta por fora – o prédio – e por dentro – o conteúdo. Aparentemente simples, o conteúdo apresentado é extremamente interessante. Nossa língua, nossa maneira de entendermos uns aos outros através das palavras. Como agora, enquanto escrevo e alguém lê.

O Museu é muito bem equipado e como todo museu moderno, dotado de recursos audiovisuais muito elucidativos. No primeiro andar há uma exposição temporária; no momento, é alusiva ao centenário de morte do escritor Machado de Assis, onde compreendemos como era sua formação, usos e costumes de sua época, o que influenciou sua literatura. Exposição muito interessante, que conta com fotos, objetos de época, fotografias, trechos lindamente ‘recortados’ de suas obras, um espelho que reflete imagens da esposa do escritor e não quem o observa. O ponto alto, parece, é a sala simples com telas de vídeo dentro da qual sentamos formando uma espécie de cinema 360°. Pessoas, simplesmente pessoas, lêem trechos da obra do escritor durante o trabalho. O policial negro que enfrenta a madrugada de trabalho num posto móvel no centro da cidade, lê sentado à janela do ‘trailer’, ou caminhando pela praça junto a crianças em situação de rua. O migrante nordestino, em sua função de zelar pela segurança na entrada de um prédio residencial, lê com cuidado pra não errar ou gaguejar, trechos de outra obra de Machado. As imagens de cada pessoa são apresentadas em momentos diferentes em telas diferentes, parecendo, às vezes, seus pensamentos... Fica-se girando no banquinho tentando não perder nada. Simples e tocante.

Subindo um andar, entramos no mote do Museu. Uma longa parede apresenta vídeos e nos conduz à parte onde se deve começar pelo fim; do fundo da sala começamos a compreender sobre a criação das línguas, suas raízes, seus cruzamentos, sua evolução. Em dado momento o enfoque começa a ser da Língua Portuguesa e percebe-se que caminhamos efetivamente pro nascimento da Língua Brasileira. Nesse momento vem à mente a questão da tentativa de unificação da Língua Portuguesa. Será mesmo viável? Será necessária? Até que ponto tentamos evitar o inevitável? Através de depoimentos explicativos e muito interessantes de estudiosos (em vídeos) compreende-se algo que, se tivéssemos parado pra pensar, já teria sido compreendido. Monitores interativos permitem que se veja a origem de palavras que usamos a todo instante originárias de línguas africanas de diferentes nações, vindas com imigrantes de várias nacionalidades e ‘aportuguesadas’ – ou deveria dizer ‘abrasileiradas’? Em outros monitores fixos, a palavra como a conhecemos, sua palavra de origem e o significado. Tudo dentro de uma linha de tempo. Tudo disposto de maneira fácil e alegre, bonita e convidativa. Outros recursos também instigam a conhecer mais o assunto. No terceiro andar, há uma grande sala de cinema ou auditório onde é apresentado um vídeo de 10 minutos que deixa vontade de quero mais sobre a criação da comunicação por palavras e de nosso ‘idioma’ e logo após, somos convidados a entrar atrás da tela, num enorme espaço onde são jogadas imagens nas paredes e teto, com palavras, vozes, músicas, poemas... Prosa e verso de todos os tempos e estilos, como um céu infinito de estrelas. Ao final, o chão fica coberto dessas palavras e as pessoas começam a caminhar entre e sobre elas, encantadas com as palavras comuns que a partir dali, adquiriram ‘novo significado’. A vontade é voltar outro dia, curtir de novo, pegar aquilo que foi perdido durante o tempo em que ficamos vidrados em algo e perdemos outro detalhe. Todo este arrebatamento pela nossa língua por módicos 4 reais pra adultos e gratuitamente a crianças e maiores de 60 anos.